Conheça os segredos do pão que não engorda
Na Provença, os pães são fonte de saúde. O fermento natural ajuda o organismo a absorver melhor os nutrientes da farinha de trigo integral. A pessoa fica saciada comendo menos pão.
Vinhos auxiliam tratamentos quimioterápicos
A bebida sagrada dos cristãos carrega muita vida. Na França, pesquisadores se debruçam sobre as moléculas do vinho, à procura de novas armas na luta contra o câncer.
A bebida sagrada dos cristãos carrega muita vida. Estamos no coração da Borgonha, em uma região conhecida como "les hautes côtes de nuits". Famosa há séculos por sua uva nobre e caprichosa: a pinot noir. Morro acima, as videiras usam a força para crescer na terra rica em nutrientes. Na região, o mais comum é encontrar dias carregados de nuvens e com muita umidade no ar. Para as vinhas, isso significa crescer em um ambiente hostil, com mais dificuldade para sobreviver. A umidade, por exemplo, facilita o aparecimento de fungos, que atacam as plantas. Para se defenderem, elas produzem substâncias chamadas de polifenóis, que matam o fungo e, depois de salvar as plantas, continuam, no vinho, onde vão nos proteger contra as doenças. Os polifenóis se acumulam na casca da uva e são liberados durante o processo de fermentação na fabricação do vinho. Por isso, é melhor beber o vinho do que tomar um suco de uva ou comer a fruta. A pinot noir é extremamente rica em um desses polifenóis: o resveratrol, que ganhou fama por ser associado a um aumento na expectativa de vida. No laboratório de bioquímica e nutrição da Universidade da Borgonha, em Dijon, pesquisadores se debruçam sobre as moléculas do vinho, à procura de novas armas na luta contra o câncer. O jovem pesquisador acaba de ganhar um dos mais importantes prêmios científicos do país. No computador, ele nos mostra o que descobriu. Uma célula cancerosa foi tratada com uma molécula sintética muita parecida com o resveratrol. O estudo ainda está em fase inicial, mas os primeiros resultados são animadores: mostraram que a quimioterapia, com ajuda do vinho, é mais eficiente. O resveratrol impede a reprodução das células de câncer e desbloqueia sua proteção natural, como se abrisse uma porta das células do câncer, para que o tratamento com quimioterapia possa entrar. O professor Norbert Latruffe, que coordena as pesquisas do laboratório, diz que os vinhos pinot noir têm outros polifenóis poderosos e pouco conhecidos. É a mistura, a interação dos componentes, que torna a bebida tão eficaz. Em vinho, quantidade faz a diferença entre fonte de saúde ou de problemas. Ele recomenda, para os homens, no máximo três taças diárias e, para as mulheres, duas taças. Sempre durante as refeições, para que o álcool seja assimilado mais lentamente pelo corpo e o vinho interaja com os outros alimentos, espalhando seus benefícios. Bernard Hudelot bebe meia garrafa por dia. Brincalhão, diz que um bom vinho da Borgonha tem sempre duas ações: uma contra os radicais livres, que aceleram o envelhecimento, e a outra a favor do bom humor. Ele conta que a avó morreu aos 98 anos e bebia vinho todos os dias. Nos faz um desafio, nos convida a voltar daqui a três décadas. Diz que, se passar dos 100 anos, ele terá razão: vinho faz mesmo bem para a saúde.
ALIMENTAÇÃO VERSUS EXERCÍCIOS
O neuropsiquiatra David Servan-Schreiber parece um menino se deliciando com a vida. Na manhã fria, pelas ruas de Paris, ele vai pedalando para o trabalho. Esse homem tão cheio de energia já enfrentou duas vezes o câncer e duas vezes conseguiu vencer. Médico e paciente ao mesmo tempo, o doutor David Servan-Schreiber se lançou em uma busca para entender os caminhos dessa perigosa doença. O que intrigava o doutor Schreiber era as estatísticas: por que os números de câncer cresceram tanto depois da Segunda Guerra? Para mudar no futuro, ele olhou para o passado. Como vivíamos, como comíamos antes de o câncer se tornar uma epidemia entre nós? Ele descobriu que, ao redor do mundo, muitos cientistas se faziam a mesma pergunta e buscavam respostas em seus laboratórios. Como um detetive, ele foi juntando esses estudos e montou uma fórmula de vida anticâncer. O primeiro passo para armar o nosso organismo contra a doença é seguir uma alimentação saudável. Alimentos frescos: frutas, verduras e legumes estão na linha de frente desse combate. O prato anticâncer também tem lugar para os cereais, como o arroz integral; os lipídios, como o azeite de oliva; as ervas e os condimentos. Há uma lista de alimentos bons para cada tipo de câncer, mas, entre os mais poderosos, estão: o alho, a cebola, o alho-poró, a couve-de-bruxelas, a couve-flor e o brócolis. Entre as frutas, aparecem no estudo as de clima temperado, comuns na Europa. São as chamadas frutinhas vermelhas: o mirtilo, o morango e a framboesa. Também são importantes a ameixa, o pêssego e o damasco. O doutor Servan-Schreiber explica que é melhor escolher produtos orgânicos, livres de pesticidas e agrotóxicos. Mas atenção: as pesquisas mostram que é muito mais importante comer frutas, verduras e legumes, mesmo com algum resíduo de pesticida, do que não comer. O doutor Schreiber recomenda ainda beber todos os dias o chá verde, rico em polifenóis, e se habituar a usar a cúrcuma, um anti-inflamatório natural poderosíssimo, que, para fazer efeito, deve sempre ser misturada com pimenta. Uma receita simples é fazer um molho com azeite de oliva e pimenta e usar para temperar saladas. Por outro lado, há os alimentos que agem como fermento para as células cancerosas. Justamente aqueles alimentos que são tão saborosos, tão difíceis de resistir. No prato anticâncer, é preciso reduzir o açúcar refinado e a farinha branca. As sobremesas, por exemplo, devem ser substituídas por frutas. David Servan-Schreiber teve câncer no cérebro aos 31 anos. Sofreu uma recaída e sobreviveu graças aos recursos da medicina moderna. Ele diz que ninguém deve abandonar os tratamentos médicos. Eles salvam vidas. O que ele recomenda é que cada um fortaleça o seu corpo para estimular a sua capacidade de resistir à doença. É uma luta diária, que deve fazer parte da nossa rotina. É uma mudança que passa também pela maneira de ver a vida. Fortalecer as relações de amizade, os laços de família. Não guardar ressentimentos. Se livrar da tristeza, do medo, da solidão. Fazer exercícios diariamente.
Mulheres francesas comem bem e não engordam
A escritora Mireille Giuliano explica como podemos selecionar melhor os alimentos que comemos e ainda ensina a preparar o ratatouille, prato famoso na França.
A primavera já avançou quando estamos de volta à Provença, agora, nas encostas das montanhas Alpilles. Fazemos as compras do almoço com Mireille Guiliano, autora de livros que fizeram sucesso no mundo inteiro, desvendando os segredos de como as mulheres francesas não engordam comendo de tudo. No multicolorido das ofertas, Mireille vai escolhendo verduras e frutas. O dia lindo mexe com o humor das pessoas. Entre tantas ofertas de queijo, ela vai escolhendo alguns. Mireille entra em uma padaria e sai com dois pães. Que dieta é essa? Ela faz uma concessão para comida pronta, mas fresquinha. Afinal, o frango orgânico tem um tempero especial, cheio de ervas. Mireille arruma as compras enquanto exploramos o jardim: as flores da Provença, as rosas e as fileiras de lavandas, que só vão desabrochar no começo do verão.
Saiba mais: Aprenda a preparar a receita de ratatouille
Saiba mais: Aprenda a preparar a receita de ratatouille
Na cozinha, Mireille prepara o ratatouille. "É muito simples", diz ela. Botamos um pouquinho de azeite de oliva e depois os legumes em camadas. Primeiro, a berinjela. O fogo deve estar bem baixo, para que cozinhe lentamente. Mas vai rápido porque são legumes. Em seguida, uma camada de abobrinha e um galho de salsinha. A terceira camada leva tomates, um galho de salsinha e alho picado. O ratatouille é uma tradição da comida francesa. É simples e pode ser reaproveitado nas sobras. "Hoje, vamos comer como sopa porque terá bastante caldo", diz ela. "Amanhã, já mais seco, ela pode requentar para acompanhar peixe ou carnes. E, se ainda sobrar, dá uma ótima cobertura de pizza, com raspas de parmesão em cima". "Se alguém quiser ter boa saúde, precisa cozinhar. Pode-se preparar um almoço ou jantar em 30 minutos ou mesmo em 15. Na verdade, uma vez que você se organiza um pouco e sabe planejar, não toma tempo", ensina a escritora. Sua filosofia é: menos é mais. Só não se deve economizar na variedade dos alimentos. Falando e cozinhando, ela prepara até a sobremesa em tempo recorde. Do vasinho da janela, ela tira as folhas de basilicão, que dão o toque final no ratatouille. "As ervas dão mais sabor à comida, e a gente usa menos sal", ela afirma. Ela põe a cenoura para cozinhar no vapor, na panela do ratatouille. Pão, azeitonas e o ratatouille está uma sopa maravilhosa. Ela serve com champanhe rosa, da cor da Provença. Vem o segundo prato: frango e as cenouras, com casca e tudo. Ela fala sobre a necessidade de se tirar o tempo para comer direito. “No dia a dia, difícil, mas o mínimo que devemos gastar é 20 minutos. Se não, o cérebro não tem tempo de receber a mensagem de que está satisfeito. Se você come rápido demais, come mais. Este é um almoço que não engorda. O segredo é comer de tudo um pouco. Ficar bem alimentado, não estufado”, aconselha Mireille. Em seguida, vêm os queijos. Um pedacinho de cada: os de cabra e um de leite de ovelha. "Quando comemos bem, nos sentimos melhor, têm mais energia e vê a vida de outro jeito", ela constata. Vem a sobremesa de ruibarbo e morango. E morangos frescos também. Tudo acompanhado do feissele, um queijo fresco. É azedinho. Em uma tarde linda de sol, seguimos os conselhos da dona da casa: "A mesa é um momento para conversar, para rir, para conviver. Quando você faz isso regularmente, percebe que fica de mais bom humor, se sente melhor, o organismo está contente, não precisa mais de tanto sal e açúcar, que são coisas que se come por estresse, e não por prazer", conclui a escritora.
Produtores rurais criam ovelhas mais saudáveis na França
A França consome, cada vez mais, pesticidas e herbicidas na lavoura. Mas esses produtos aumentam a produtividade e, ao mesmo tempo, envenenam a terra.
Desde que os primeiros frades ocuparam o monte e começaram a construir a Abadia de Saint Michel, as ovelhas encontraram o pasto salgado das terras que, volta e meia, são invadidas pelo mar. Naquele canto da França, onde Normandia e Bretanha se encontram, o clima é sempre úmido. O vento parece nunca ir embora, como as ovelhas, que há 13 séculos criaram um novo hábito e hoje têm quase status de raça nova. São as pré-salé. Na região, a história da produção de ovelhas vive mais uma mudança em busca de um tempo perdido. A alegria de uma vida simples, o prazer de respeitar a terra de onde se tira o sustento. O rebanho tem espaço de sobra para se movimentar e se farta no pasto abundante. As crianças, muitas para o padrão francês, compartilhando a rotina da fazenda. Elas se divertem com o trabalho do pai, o técnico agrícola Jean-Claude Juhel, que abandonou o emprego para buscar um sonho: criar animais saudáveis, que possam, ao servir de alimento, transferir saúde para nós. Filho de agricultores, Jean-Claude cresceu vendo a França consumir cada vez mais pesticidas e herbicidas na lavoura. Mas esses produtos que aumentam a produtividade e, ao mesmo tempo, envenenam a terra não entram na fazenda dele. As ovelhas também não comem rações industrializadas. Folhas e flores de alto valor nutritivo, colhidas no local, servem como complemento alimentar. Isso dá certo? O criador diz que a resposta vem das ovelhas: "Elas encontram aqui um bom ambiente para se reproduzir". E como! Nos últimos três anos, a taxa de fertilidade na região foi de 99%. E, quanto mais fertilidade, mais carneirinhos, mais leite, mais queijos e mais iogurtes para vender. Ele e a mulher fabricam iogurtes 100% natural e dez tipos de queijos. Produtores da região que seguem os mesmos princípios ecológicos e de saúde se reúnem uma vez por semana em uma feirinha em Dol-de-Bretagne. Eles vendem verduras, legumes e pão orgânico para clientes que buscam essa transferência de saúde. O mercado de orgânicos cresce quase 10% ao ano no país. Nas terras da Bretanha, a viagem do Globo Repórter chega ao fim. Partimos mais tranquilos por saber que um país como a França usa todo o peso da sua cultura alimentar para buscar conhecimento e soluções.
Gado que come linhaça produz carne mais saudável
Sete mil produtores em toda a França estão usando a linhaça como complemento alimentar dos animais. O leite e a carne ficaram mais nutritivos e ricos em ômega-3.
Cruzamos a França e amanhecemos nas terras da Bretanha, onde cidades parecem flutuar sobre as nuvens. Os primeiros raios de sol já encontram, no pasto, os animais que estão provocando uma revolução alimentar na França. O que está dando tanto o que falar é o que as vacas comem: erva, uma ração de feno, soja e milho e um preparado a base de grãos de linhaça. Essa sementinha poderosa – rica em ômega-3 – é capaz de deixar a carne e o leite desses animais muito mais saudáveis. A ideia de dar linhaça para as vacas nasceu da curiosidade de um típico fazendeiro francês, que, antes das 6h, já tem humor para desafiar uma desajeitada repórter a ordenhar. Cada vaca produz, em média, 35 litros de leite por dia. Um leite mais saboroso e mais nutritivo. O pecuarista Jean-Pierre Pasquet conta que não entendia por que a manteiga feita na fazenda no inverno não era tão gostosa e não deslizava tão suavemente no pão quanto a manteiga feita em outras épocas do ano. Um agrônomo analisou os produtos e descobriu que faltava ômega-3, um problema que apareceu nas últimas décadas com a criação de gado confinado, para aumentar a produtividade. O pasto é rico em ômega-3. Mas, no inverno, quando as vacas se alimentam só com ração, em vez da grama verde, o leite fica pobre nesse ácido graxo essencial para o nosso organismo. Muda a textura, o sabor e a manteiga fica perigosa para a saúde. Diminui o ômega-3, sobe a concentração de ômega-6. Esse desequilíbrio de até 20 vezes mais ômega-6 do que ômega-3 provoca inflamações, coagulações e o surgimento de células cancerosas, além de aumentar o risco de doenças cardíacas. Ao ser perguntado se a saúde dos animais melhorou, agora que eles comem linhaça, Jean-Pierre diz que sim, visivelmente. Diz que o pelo das vacas está mais brilhante, elas estão mais saudáveis e, por isso, precisam de menos remédios. E não é só o leite que ficou mais nutritivo. Na fazenda vizinha, encontramos outro produtor satisfeito. Desde 2002, ele dá linhaça para o gado de corte e diz que as vendas estão indo muito bem. Os clientes andam felizes com o gosto e a qualidade da carne. Sete mil produtores em toda a França estão usando a linhaça como complemento alimentar dos animais. Nos supermercados, já são centenas de produtos: queijos, manteigas, iogurtes, carne de frango, de porco, ovos. Um selo de qualidade do Ministério da Saúde identifica os produtos, conhecidos como bleu-blanc-coeur – em português, azul, branco e coração – um trocadilho com as cores da França. Na Universidade de Rennes, encontramos o professor Philippe Legrand, chefe de uma pesquisa feita com voluntários que comeram produtos de animais alimentados com linhaça. O resultado é o que ele chamou de uma transferência de saúde. Os voluntários tiveram um aumento de ômega-3 no organismo. O professor explica que há dois tipos de ácido graxo e precisamos dos dois. Um vem das verduras, dos vegetais. Outro está na gordura animal. Pois a pesquisa mostra que a carne vermelha, de gado alimentado com linhaça, é rica nos dois e pode ser tão saudável quanto um filé de salmão. Isso vale também para a carne de porco, frango e ovos. Seria a redenção da carne vermelha? "É claro que não. Comer com moderação é a melhor receita de saúde. Mas, produzida saudavelmente, a carne vermelha pode sair da lista dos grandes vilões", diz ele. O reconhecimento dessa pesquisa veio do Ministério da Saúde da França, que editou uma recomendação para que os consumidores procurem produtos com o selo especial, para evitarem doenças. Jean-Pierre é um defensor apaixonado da linhaça. Dono de uma fazenda na qual os animais transpiram vitalidade, ele reconhece que os custos da produção ficaram até 10% mais caros. Mas, para ele e todos os envolvidos nessa busca pela alimentação saudável, o benefício sempre vai compensar o preço.
Aprenda a preparar a receita de ratatouille
Prato é uma das comidas típicas da Provença, na França.
O ratatouille é uma tradição da comida francesa. É simples, e pode ser reaproveitado nas sobras. Pode ser servido como sopa no primeiro dia, quando tem bastante caldo. Já mais seco, pode ser requentado e usado como acompanhamento de peixe ou carne. E se ainda sobrar, dá uma ótima cobertura de pizza, com raspas de parmesão em cima.
Veja como preparar o ratatouille:
Veja como preparar o ratatouille:
Ingredientes
3 tomates
abobrinhas
berinjelas
alho
Basilicão ou salsa
sal e pimenta
Modo de preparar:
Utilize uma quantidade igual de tomate, abobrinha e berinjela. Lave e corte em fatias grossas. Coloque numa panela alta uma pequena quantidade de azeite de oliva. Faça camadas começando com a berinjela, o tomate e, por último, a abobrinha. Repetir até que a panela esteja quase cheia. Adicione o alho e o basilicão entre as camadas. Tempere com um pouco de sal e pimenta. Cubra e cozinhe em fogo baixo até que os vegetais estejam tenros.
FONTE:http://g1.globo.com/globoreporter
